A busca de mim...

08/04/2018

Nasci empreendedora, extrovertida, brincalhona. Mamãe me disse que falei antes mesmo de andar. Escrevo o que vivo e penso desde que aprendi a escrever. Uma comunicadora... nata. Parecia-me que havia vindo a esse mundo para trazer alguma mensagem. Algo que eu não era capaz de entender ainda até bem pouco tempo atrás.

 

Cresci em uma família que tinha a intenção de ser bem comum e ordinária. Sentia um peixe fora d'água, sufocando. Ouvi, de diversas maneiras, que ser quem eu era não era algo bom. Eu devia ser como meu irmão mais velho em determinado aspecto, como o mais novo em outro, como o filho de não-sei-quem... E tudo o que queria era ser amada por ser eu mesma.

 

Eu gostava de mim. Era tão confiante que, nas festinhas de criança, com 3 ou 4 anos, quando alguém dizia que eu era bonita, respondia "eu sei". Gostava tanto que quem era que, adolescente, criei uma versão minha dentro do espelho. Esse alter ego tinha a vida que eu queria ter. Quando me sentia triste, fugia da realidade, trancava a porta do quarto, sentava-me no chão do banheiro e dialogava com meu reflexo.

 

A frase "você é um perigo para você mesma" proferida por meu pai, em uma das centenas de vezes que me repreendeu, ecoou na minha mente anos a fio. Talvez ele tivesse razão. Comprei a ideia e busquei repetir os modelos abusivos dos relacionamentos que via à minha volta. "Quem sabe, seu eu for como 'eles' poderão ver valor em mim, me reconhecer e me amar?", eu pensava... Não usando essas palavras, mas com essa intenção.

 

Não, os 23 anos que vivi em família não foram uma tragédia. Seria injusto falar isso. Muito do que acontecia de conflitos, inseguranças, amor distorcido ruminava no meu mundo interior e não no exterior. Boa parte de quem me conheceu talvez não desconfiasse do que estava nos bastidores. O que se via era uma menina/garota/jovem mulher extrovertida, animada, cheia de sonhos, corajosa e divertida.

 

Claro que fui tudo isso (e sou até hoje). Fiz teatro na escola, normalmente como atriz principal, era líder de turminhas, aluna de boas notas, passei de primeira no vestibular, gastei horas e horas de telefone com as amigas, assisti Disc MTV... Não posso reclamar, em absoluto. Até porque, tanto meu pai quanto minha mãe (tenho duas, aliás), quanto meus irmãos e ex-namorado fizeram tudo o que puderam com o que tinham a oferecer e só fizeram comigo o que eu permiti, dentro do que eu tinha condições de gerir. Não há culpados...

 

Diante de tudo isso - e muito mais que não caberia em um só texto - havia um vazio. Um buraco enorme me consumindo por dentro, ano após ano. Tentei tapá-lo com "casamentos" - foram três! - com comida, com cigarro, com bebida, com trabalho... De nada adiantou. Juro, me esforcei em todos os casos e, apesar de algumas tentativas contrária, ainda sou fumante. Tudo bem, se tem algo que aprendi, e não tem muito tempo, é que me culpar, martirizar por isso não vai ajudar.

 

Na minha busca por mim, encontrei o autoconhecimento e a espiritualidade. No primeiro universo, o coaching foi catalizador não só de mais uma carreira - não é possível deixar de ser jornalista - como abriu as portas para um mergulho até o fundo do poço. Melhor viagem, ever (ok, pode me chamar de doida). Acabaram as desculpas, as medidas paliativas de me encontrar, de olhar para minha sombra, para meus lutos. Ali eu podia escolher desistir, me entregar para um processo depressivo ou podia renascer. A fênix veio como uma mola propulsora e uma tatuagem enorme na minha perna às vésperas dos meus 33 anos.

 

Eu renasci sem precisar de um choque de realidade que me deixasse à beira da morte ou precisasse perder alguém muito significativo. Na real, eu havia perdido. Passei anos perdida de mim atendendo (de um jeito meio rebelde, eu sei) ao que queriam que eu fosse. Era um basta e eu mal sabia que para sair do fundo daquele poço precisaria passar por muito mais coisas que iriam me dilacerar.

 

Se posso fazer um marco cronológico, são cinco anos desde que soltei ao que me agarrava para chegar ao fundo do poço e, desde então, tenho lidado comigo em direção à luz. No meio do caminho, além de encontrar pessoas incríveis - e outras não tão incríveis assim, mas que deixaram seu recado - encontrei meu espírito que estava agonizando em meio à tanta racionalidade. E foi conectando os diversos pedaços de mim ao que está muito acima de nós que senti a sensação de amor mais linda da minha vida. Eu estava distraída, mas quando me dei conta, percebi que o vazio que me doía tanto havia passado.

Quando, hoje, teço adjetivos generosos a mim, se me exponho (e, pode esperar que virão mais "revelações" nos próximos textos, sem spoiler por enquanto) é porque não tenho vergonha de mim. Muito pelo contrário. Tenho satisfação e orgulho por cada pedaço de cada capítulo que passei, com carinho especial, aos ocorridos nos últimos cinco anos. Fui à carne viva, sangrei, lambi minhas feridas mais profundas e, aos poucos - porque é mesmo um processo demorado - vejo revelar entre cicatrizes quem sou e, pode ter certeza, não haverá nada que me faça abrir mão de quem me tornei.

 

 

Agora, já que leu até aqui, merece saber o porquê desse textão egocentrado. A Thais, idealizadora desse blog, me procurou há alguns dias, apresentando o projeto e dizendo que a ideia "basicamente é divulgar histórias inspiradoras de outras mulheres". Na visão dela, por gostar dos meus posts, eu poderia ajudar e inspirar outras mulheres. Fiquei feliz pelo reconhecimento e, pensando a respeito, saiu esse primeiro texto (além de ideias para outros). Além disso, somos colegas de escola primária cujas redes sociais (re)uniu. Não somos próximas ou íntimas, mas sei que paira entre nós uma admiração mútua pelas lembranças infantis e as mulheres que cada uma se tornou. Por isso mesmo, agradeço a oportunidade, Thais.

 

Só para deixar claro, não tenho (nem nunca terei) a pretensão de convencer alguém ou de me apresentar superior. Sou tão humana, cheia de celulites e implicada com alguma parte do meu corpo quanto você. A única diferença que, talvez, tenhamos, é que estou do lado de cá. Saber da sua opinião muito me ajudará a me sentir acolhida e incentivada a escrever mais. Estou jogando a real :-). Ah, e tudo bem se você não concordar ou divergir da minha postura, ok? Para mim, está valendo.

 

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