Sobre escolhas, maternidade, respeito e “não ser aquela pessoa”

04/05/2018

Toda mulher, um dia, vai ser obrigada a responder a fatídica pergunta: “ E o bebê, quando vem?’. Sim, um dia, você que está lendo este texto, vai passar por essa situação. E vai ser chato e constrangedor, já te adianto. A maternidade é um selo que parece te fazer melhor do que qualquer outra mulher, ou que pelo menos, te diferencia de grande parte delas. E isso gera um desconforto gigante dentro de mim. Durante anos na minha vida pairou uma dúvida enorme sobre o querer ser mãe. Nunca me senti responsável o bastante por mim, e sempre me questionei se eu seria capaz de cuidar de uma outra pessoa, e de encarar, com muita clareza, todo o pacote de responsabilidades que vem junto.

 

Sou casada há mais de 10 anos. O assunto “filhos” sempre permeou a nossa vida conjugal, mas para nós, nunca houve a “hora certa”. As prioridades do trabalho e da vida que sempre quisemos aproveitar gritaram mais alto e o tempo, esse danado que só obedece aos nossos desejos, foi passando numa velocidade estrondosa. Até que a vontade da maternidade bateu. Mais em mim do que no meu marido, mas bateu. E veio de frente com uma força gigante, mesmo com medo de um dia me tornar parte daquele grupinho que tira vantagem em cima daquelas que não querem adentrar ao “clubinho”.

 

Mas junto também veio o balde de água fria e um diagnóstico impreciso do tipo “não há nada de errado com vocês mas a gravidez não acontece”. Meses e meses tentando. Menstruação virou sinônimo de incapacidade, entende? Opções? Sim, algumas: remédios, quantidade absurda de hormônios, tratamentos mirabolantes e extremamente caros e que me fizeram pensar no quanto “gerar vidas” se tornou algo lucrativo para o mundo da medicina. E não, nada disso era para mim. Definitivamente, não. Financeira e psicologicamente falando.

 

Os questionamentos e a cobrança da família e amigos, passaram a me incomodar muito mais. Não só porque a minha vontade era gritar um “Não vai ter filho nenhum, porra!”, mas porque passei a me colocar também no lugar de quem nunca teve o sonho da maternidade. Porque, mais uma vez, diante dos olhos de uma sociedade medíocre, é como se você estivesse descartando aquele selo que irá te transformar no único ser capaz de sentir o amor absoluto, puro e imaculado. Ai que preguiça...

 

Mas o fato é que o meu diagnóstico, ou a falta dele, junto com a minha “incapacidade” de gerar uma vida, que naquele momento passou a ser tão desejada, veio como uma bomba na minha vida. Desisti. Parei de tentar. Escolhi não fazer nenhum tratamento e não me frustrar. Deixei de ir ao médico. Deixei o assunto de lado. Descontei na comida e engordei mais do que imaginaria engordar. Descontrole? Depressão? Ansiedade? Tristeza? Tantos nomes... mas um só sentimento, eu havia falhado. E numa conversa muito franca com meu marido, disse que a partir daquele momento, eu não viveria mais em função daquela espera.

 

Mas sofri calada. Não havia com quem compartilhar. Não da mesma forma e na mesma intensidade. Na verdade, hoje percebo que tive medo de me abrir, de procurar ajuda, e entendo que isso teria me auxiliado muito. Mas eu decidi passar por tudo sozinha, escondida e viver uma espécie de luto sobre algo que eu nunca havia perdido, mas por algo que eu havia desistido. Estaria eu abrindo mão daquele “selinho materno” fantástico por uma incapacidade genética? Chorei, chorei muito. Via minhas amigas engravidando, e aquele velho questionamento aparecia novamente... “e quando vem o seu?’. Me sentia um lixo e achava mais fácil responder: “Ah, desse mato não sai cachorro.”. Mas eu queria sim, uma ninhada enorme para chamar de minha...  

 

O tempo foi passando, depois de um ano eu ainda me dividia entre as sensações, mas uma certeza crescia com uma força brutal dentro de mim. Eu continuava querendo ser mãe. Só não sabia como, nem quando ou em que circunstância.

Foi então, que em uma conversa com uma amiga com quem há tempos eu não falava, eu percebi que a tão falada maternidade já fazia parte de mim, e sem perceber, eu já havia aberto meu coração para algo maior do que o meu ventre era capaz de carregar. Meu coração despertou para a ADOÇÃO. Fiquei remoendo isto por semanas. Li tudo o que caiu na minha mão sobre o assunto. Repleta de informações e cheia de coragem, resolvi conversar com meu marido sem ter a menor ideia de como ele reagiria. E ouvi um sim tão grande e inesperado, que a partir daquele momento eu entendi que muito mais do que o desejo de gerar uma vida, meu sentimento sempre foi o de ser MÃE. E foi ali que iniciamos nosso processo. Continuamos no silêncio, contando nos dedos de uma mão as pessoas que sabem, porque o processo é lento, é moroso, é sofrido, é uma gestação que parece não ter fim... Mas hoje, depois desse tempo todo, sei que tudo isso é necessário. Um ano depois da entrada do processo, ainda estamos aguardando as entrevistas obrigatórias com psicólogo e assistente social. Um ano depois, ainda estamos a alguns meses do “entrar na fila”, do estarmos “habilitados”. Depois disso, ainda existe mais uma longa espera. 3...4...5... 6 anos. Impossível prever.

 

E os questionamentos? Continuam... a pleno vapor. Porque agora estou perto dos 40! Não dá mais para esperar... ouvi isso até de um médico, pasmem! Mas aprendi que meu silêncio diz mais sobre isso do que qualquer palavra. Hoje, respiro fundo, conto até 10 e sigo dando meu meio sorriso torto e desconfortável, deixando claro que isso é algo que só diz respeito a mim e ao meu marido.

 

Aliás, respeito. Está aí a palavre chave do entendimento, da aceitação, do não questionamento estúpido, da não comparação, da empatia! Se você quer ou não ter filhos, isso só diz respeito a você e ninguém tem o direito de rotular a sua capacidade de amar baseado apenas na maternidade. Não permita isso nunca!

 

E se você estiver se sentindo mal, porque no fundo sabe que já fez essa pergunta a alguém, e nunca levou em consideração o que essa pessoa passou ou o que ela de fato deseja em relação a filhos, tudo bem, você está perdoado. Fico feliz em saber que pelo menos você, não será mais esse tipo de pessoa!

 

 

 

Biografia

Jôse (nome fictício em homenagem ao maior pai adotivo da história, José, pai de Jesus).

35 anos, pós-graduada em uma área em que abandonou antes de ficar maluca, leitora voraz, defensora do “faça você mesma” e do vestibular para entrar em redes sociais, lava, passa, cozinha, costura e bebe, tudo isto para seu bel prazer, possui curva suave à esquerda (politicamente falando) e pretendente à adoção.

 

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