Ser solteira e estar sozinha

09/05/2018

Eu estava no elevador levando minha cachorrinha Milu para passear. Uma senhora entrou e a elogiou: "que linda, aposto que seus filhos adoram ela". Respondi que não tenho filhos, ela insistiu: "ah, então aposto que seu marido adora cachorros". Frustração novamente: "eu não sou casada", respondi calmamente. Ela ficou constrangida e aliviada por termos chegado ao térreo, conclui: "tenho certeza de que não foi por falta de beleza". Juro que a vi sair mais apressada que o normal depois da conversa.

 

Essa cena não é imaginária e, mesmo que sem diálogos explícitos acontecem a todo tempo com mulheres que tenham mais de 30 anos e são (ou seria estão?) solteiras. Sem contar quando os episódios acontecem em família, como ouvi outro dia: "você não pode falar sobre isso (nem faz diferença o assunto) porque não é casada". Eu já tive relacionamentos longos, de morar junto e tudo mais... Mesmo assim, passei por essa situação. Na minha mente só veio a percepção de que parecia mais uma falta de argumento plausível do que uma razão que merecia ser levada em consideração.

 

Sabe, falamos muito sobre a independência feminina, sobre cuidar de nós mesmas, sermos autônomas... Mas, ainda que estejamos convictas e até bem tranquilas com nossas escolhas, o fato é que, até a mais livre das mulheres se sente incomodada com contextos como os que contei. Eu mesma ainda estou aprendendo a me bancar, o que significa aqui, cultivar a minha própria companhia e simplesmente ignorar as opiniões alheias.

 

A primeira vez que morei sozinha foi um misto de pura liberdade e desespero do que fazer com ela. Como contei no primeiro artigo aqui do blog, cresci ouvindo que não era uma boa ideia eu fazer as coisas sozinhas... Oh, que crença chata de ressignificar.

 

Nos primeiros meses de voo solo de moradia, a primeira coisa que fazia quando chegava do jornal era ligar o rádio ou a TV. Tinha um certo pavor do silêncio. E, naquela época, eu estava entre namoros, mas quase começando o meu último relacionamento.

Só cinco anos depois, de volta à minha cidade natal e solteira, voltei a morar sozinha, por praticamente dois anos. Mesmo aprendendo a cultivar o silêncio, minha própria companhia me proporcionava uma verdadeira montanha russa de emoções. Em alguns momentos, acompanhada de um vinho e queijos, adorava, acha tudo de bom. Em outros, uma verdadeira deprê me abatia e eu ficava meio doida para "fugir de casa", ainda mais trabalhando homeoffice. Nesse período da minha vida, sem dúvida, a melhor coisa foi aproveitar para me conhecer melhor, seja o lado luz ou o lado sombra. Afinal, todos eles têm o seu valor.

 

Fico pensando nas mensagens que vejo sobre se valorizar, ser livre, sobre acha um absurdo os julgamentos sociais e familiares quando se está solteira e/ou mora sozinha. Mas o fato é que precisamos lidar com aqueles que achavam que a vida vira uma zona só porque há uma só moradora em casa. Sem contar a cara com sorrisinho no canto de boca do porteiro no dia seguinte que recebia visita em minha casa... Ah! Que dispensável.

 

Acho que o maior ponto de incômodo vem de se importar com a opinião dos outros. Foi o tempo que me incomodava mais... Hoje, costuma ser bem mais tranquilo. Ainda assim, vou menos ao cinema sozinha do que gostaria e penso duas vezes antes de ir ao café 24 horas, em pleno início de madrugada, só acompanhada do meu caderno de anotações. Ainda são ocasiões e não algo corriqueiro como poderia ser.

 

Para mim, o grande lance de ser "livre e solta" é entender como funciona o "leve" da tríade. Como atender às vontades sem ativar nos outros o impulso de rotular você? Como se blindar dos olhares de piedade das senhorias de elevador? Como se bancar sem que parte da sua própria família lhe perceba como alguém inteiro? E como fazer tudo isso sem parecer que é uma briga por um espaço e uma escolha que todos têm direito? A retórica fica no ar para cada uma de nós encontrar as próprias respostas conforme os contextos.

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