Relacionamento abusivo

02/06/2018

Obs: O texto contém palavras de baixo calão para ilustrar a ofensa verbal usada pelo abusador.

 

Bom, é até difícil saber por onde começar uma história tão longa e dolorosa, mas vamos do começo. Em outubro de 2015, prestes a completar 16 anos, o conheci na escola. No começo ele era um príncipe, apesar de já dar pequenos sinais de possessão que eu não enxergava na época. Primeiro, me dizia que minhas amigas não prestavam, que falavam mal de mim, que eu não devia andar com elas, que queriam nos afastar. Eu, claro que me afastei. Logo, ele começou a trabalhar e mudou de turno, foi para o noturno, e foi aí que tudo começou a mudar.

 

Eu fiquei sozinha, pois já tinha me afastado de todo mundo, e ele sempre dizia que ia ficar de olho em mim para eu "não fazer besteira". Eu comecei a fazer um curso no mesmo horário que ele estudava, ele podia conversar com todos, ter os amigos que quisesse, mas eu não, pois eu não sabia escolher meus amigos. Um dia, me pegou conversando com uma colega e brigou comigo, me chamou de um monte de coisas na frente da escola toda.

 

Ele parou de estudar, e queria que eu parasse também, e eu relutei, pois estava me preparando para o vestibular, prestes a realizar meu sonho de cursar História. Sempre fui da igreja, e quando  fui chamada para trabalhar em um encontro, ele disse que eu ia para lá para "dar pros macho tudo". Fui mesmo assim, e quando voltei ele me humilhou muito. Depois veio até minha casa, chorou, fez um escândalo, se ajoelhou e me pediu perdão, e eu claro que perdoei.

 

Vou ressaltar antes dos relatos a seguir que sou bem magra e baixa, com 1,50 de altura e 38 kg, enquanto ele tem quase 1,90 e pesa mais de 90 kg. Com o passar do tempo a situação foi piorando. Eu não podia sair nem com a minha mãe, meus gostos eram ruins, seja para filme, etc. Quando completei 17 anos, um amigo de infância, gay assumido, postou uma foto nossa no Facebook. Cheguei na casa do meu ex-namorado, ele só me pegou pelo braço, me jogou na parede com muita força, me xingou de vadia, piranha, desgraçada, puta. E jogou o celular em mim, que por sorte pegou na parede e espatifou. Daí ele me humilhou mais ainda, apertando meu pescoço, e gritando "TÁ VENDO? AGORA TÔ SEM CELULAR POR CAUSA DE UMA PUTA INÚTIL COMO VOCÊ!!! EU DEVIA TE MATAR!!!" Sorte que a avó dele chegou e ele parou. Fiquei com um roxo e nas costas semanas a fio, mas disse em casa que era da Ed. Física na escola, e usava sempre blusa de frio para ninguém ver, apesar do calor infernal.

 

Ele me pressionou para perder a virgindade, porque segundo ele isso era besteira. Cedi, mesmo sem querer, e depois de todas as vezes ele fazia questão de dizer coisas como "nossa, nem pra fuder você serve." Fiz muitas vezes sem a mínima vontade só para agradar, e tantas outras eu disse não e ele me forçou. 

 

Em dezembro de 2016, ele foi para outro estado passar um tempo por conta de problemas familiares e depois de me dizer 1 milhão de coisas bonitas, aceitei manter o relacionamento a distância. Eu consegui entrar na faculdade, no mesmo mês, mesmo com ele me ridicularizando pela minha escolha, prevendo que eu fracassaria por escolher um curso "bosta". Por conta disso, passou 2 meses e meio sem me dar um oi sequer, porque eu ia me tornar uma "maconheira prostituta".

 

Voltamos a nos falar, mas a paz só durou até eu postar uma foto no Facebook. Em seguida ele me proibiu disso, e eu aceitei pelo bem do relacionamento. Ligava por vídeo, e daí para frente veio a pior fase de todas.

 

Eu era ridicularizada. Comecei a ser chamada de zebrinha, por conta das estrias que tenho na bunda, minha sobrancelha era feia, o formato da minha boca era estranho, se eu dizia que estava com saudade era uma sentimental ridícula, cortei meu cabelo, e ele gritou horrores comigo porque não pedi autorização a ele, e daí começou a dizer que eu estava querendo virar homem. Começou a exigir que eu tinha que entrar na academia porque "magra desse jeito você parece que tá com uma doença terminal, nem preciso ter medo de você me trair porque ninguém vai querer comer um esqueleto ambulante desse." O formato e tamanho das minhas unhas “eram de prostituta”, e só serviam para "arranhar meus clientes". Eu devia rir menos, porque parecia uma retardada sorrindo daquele jeito, e mulher dele tinha que ser de respeito. Falava essas coisas e enquanto eu chorava, ria descontroladamente e falava que eu ficava mais feia ainda daquele jeito. 

 

Eu comecei a pensar em terminar, e sempre que tentava ele dizia que ia se matar e a culpa era minha. Toda semana me pedia "um tempo pra pensar", ia para as festas, bebia, eu via no stories dos amigos dele, e ele dizia que eu estava louca, que nada disso havia acontecido. Eu fiquei muito doente nesse tempo, e ele dizia que era frescura minha, que só estava fazendo cena para ter atenção, mas que ele tinha coisa melhor para fazer do que aguentar enjoo de menina mimada.

 

Queria que eu fosse morar com ele, ou pelo menos visitar, e eu disse que não iria porque não tinha condições econômicas e minha família não permitia. Me humilhou até cansar por isso, desejando que todos morressem e que eu ficasse sozinha para parar de ser fresca e ser “pau mandado” deles.

 

Fui suportando tudo, já destruída psicologicamente, sem ninguém, notas caindo na faculdade, doente, sem fazer nada do que eu gostava, com medo de ir até comprar pão e ele descobrir. Comecei a sair com uma amiga que sempre me apoiou, e ele, ao descobrir que bebi uma garrafa de cerveja, surtou completamente, de uma forma indescritível, ameaçou até mandar matar a minha amiga na minha frente. Vale ressaltar que ele já agrediu a mãe, a avó e a irmã. 

 

No final de fevereiro, terminou comigo porque eu o sufocava demais, mas sempre me lembrando que uma hora ia me querer de volta e que eu iria me arrepender se arrumasse outra pessoa, que ele ia dar um fim nos 2 e se matar depois. E eu, nesse meio tempo, reencontrei um amigo de infância, com quem desabafei sobre tudo, e que me deu todo o suporte possível para me libertar. Esse amigo acompanha desde criança a mãe sendo violentada pelo pai, e ele me mostrou um perfil no Instagram que eu vou agradecer eternamente por existir, e que recomendo a qualquer mulher que esteja passando pelo mesmo que passei a visitar. O perfil se chama: "MAS ELE NUNCA ME BATEU". Li relatos que descreviam minha vida perfeitamente. Chorei desesperadamente, foi uma série de tapas na cara.  Sabe, foi como se eu tivesse tirado uma venda dos olhos, acordado de um transe. Eu finalmente enxerguei o que estava acontecendo, e mesmo sob ameaças de ter a família toda morta, de ser estuprada, esquartejada viva e jogada em uma vala, eu dei um basta, disse que não tinha medo dele e que ia ser feliz. E aí o discurso mudou, ele chorou, me pediu perdão, disse que ia mudar, me implorou mais uma chance, mas eu fui firme e disse NÃO, NÃO E NÃO!!  

 

Hoje, aos 18 anos, quase na metade da faculdade, mesmo tendo pouco tempo e lotada de marcas psicológicas permanentes, eu resolvi me dar uma chance. Me sinto tão livre agora. Engatei um relacionamento com esse amigo que me ajudou e que defende a causa feminista com unhas e dentes, me respeita muito e enfrenta comigo as pressões psicológicas que meu ex-namorado ainda faz: de querer se matar e dizer que eu acabei com a vida dele.

 

Sei que é um relato longo, mas eu queria dizer do fundo do meu coração, que toda mulher tem o direito de ser feliz, e pode se libertar de um opressor. Se apegue a algo que te dê força, seja religião, amigos, família. Não desista de você! E se você não tiver nada disso, se olha no espelho e se apega ao mulherão da porra que é, e que merece uma vida de sucesso e felicidade. É muito difícil aceitar que o cara que te jurou amor eterno bate na sua cara. Dá medo, é difícil, a dor da humilhação nunca passa, assim como o medo de reviver tudo. Mas acredite em mim, você consegue! Eu demorei 2 anos e 4 meses, mas a cada dia me vejo mais distante dessa dor. Não importa se você é magra, gorda, tem 18 ou 80 anos, pobre, rica, você é um ser humano, uma mulher que merece ser respeitada e valorizada, não deixe nunca ninguém te convencer do contrário!

 

“Queria mesmo poder abraçar cada uma que sente a dor do abuso”.

 Autora do texto.

 

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