A dor e a delícia de ser o que é

06/06/2018

Poucas coisas são tão difíceis quanto a aceitação própria. Quando você é uma pessoa fora dos padrões impostos pela sociedade, acaba sofrendo um preconceito e uma chuva de olhares julgadores. Temos que vestir o que nos ditam, comer o que nos oferecem... A sociedade quer te dizer como ser, como se sentir. É uma pressão constante e isso é muito complicado.


Eu demorei um certo tempo para me aceitar como sou. Em parte, porque você ter um corpo gordo é para as pessoas, sinônimo de desleixo, de doença, de falta de amor próprio; e em parte porque me olhava no espelho e só enxergava minhas imperfeições.


Na infância e adolescência, sofria o famoso bullying, que na época nem tinha esse nome, por ser acima do peso. A grande maioria das meninas eram magras e eu fugia desse padrão. E elas eram bonitas, eram populares. Eu era inteligente. Depois, ao me tornar adulta, comecei a entender que as pessoas não te dizem tudo que pensam e por trás de vários elogios pode estar escondido um quê de pena. 
Por dez anos tive meu cabelo colorido, numa época em que poucas pessoas tinham e eu amava! Mas era motivo de piada entre as pessoas... 


Sofri quando descobri traições por parte do meu ex-marido e pelo fato dele não sentir tesão no meu corpo gordo. Mas quando um episódio que muito me feriu na infância, veio à tona, eu passei a entender boa parte dos meus problemas com meu próprio corpo. Nosso corpo é nossa morada. E eu tive minha morada, violada. Com terapia, passei a entender que por conta disso, por muito tempo, eu odiei meu corpo. E ao ter esse episódio recordado, eu percebi que minha vida não poderia ser moldada por isso, muito menos a forma como eu me via no espelho.
Mudei.


Comecei a decorar minha morada, com flores, borboletas e cores. Muitas cores. Minha pele foi virando uma tela em branco, onde passei a reescrever a minha nova história. A história de uma mulher que viveu muita coisa, que sobreviveu, que vai continuar lutando e andando em frente. Decidi que não deixaria mais as pessoas me dizerem como eu deveria me sentir com relação a minha forma física. Passei a amar meu corpo por tudo que ele havia carregado, por tudo que havia suportado. E passei a ser grata por tê-lo, inteiro, saudável. Sim, saudável.


Um corpo gordo, perfurado, rabiscado, que para muitos pode até parecer um corpo estranho. Mas é o meu corpo, que carrega toda a minha história. Me aceito hoje, exatamente da maneira que sou e me amo. Me acho linda a maior parte do tempo e não deixo que me diminuam se acharem o contrário. Obviamente há dias em que eu não me vejo tão bonita, mas esses dias também tem fim, e acabo sendo grata por existirem, pois me fazem dar valor a minha autoestima.

 

Nenhuma opinião alheia irá mudar a forma como eu me vejo, como eu me amo e como eu devo viver.

 

 

Se amar é o primeiro passo para a felicidade.

 

"Triste, louca ou má, será qualificada ela a quem recusar. Seguir receita tal, a receita cultural: do marido, da família, cuida da rotina. Só mesmo rejeita bem conhecida receita, quem não sem dores aceita que tudo deve mudar. Que um homem não te define, sua casa não te define, sua carne não te define, você é seu próprio lar. Ela desatinou, desatou nós, vai viver só. Eu não me vejo na palavra, fêmea: alvo de caça. Conformada vítima. Prefiro queimar o mapa, traçar de novo a estrada, ver cores nas cinzas. E a vida reinventar. E um homem não me define, minha casa não me define, minha carne não me define, eu sou meu próprio lar!"

 

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