Fui estuprada e me culpei

25/06/2018

 

Em uma noite aceitei carona de um conhecido. Ia chamar um carro, mas ele insistiu que me levaria. No meio do caminho o homem me deu um beijo à força. Aquele ser, que tem idade para ser meu pai e era alguém que confiava, resolveu que um beijo contra a minha vontade era uma ótima ideia. Foi estupro!

 

Não era uma criança ou adolescente, mas uma mulher e ainda assim a reação foi me desvencilhar e mandá-lo parar. Fiquei péssima, chateada e procurando onde errei. Sim, certamente a culpa era minha. Será que dei algum sinal e ele entendeu errado? Será que disse poucos “NÃOS”? Será que ele achou que esse não era charme da minha parte, mas qual o motivo do conflito? Não deveria ser não. Sabia que a culpa não era minha, mas não foi fácil acabar com esse sentimento.

 

Ao comentar com conhecidos fui questionada se foi “apenas” um beijo. Como se um beijo não fosse nada. Como se esse beijo não fizesse com que eu não pegasse mais caronas e tenha medo até de andar com transportes por aplicativos. Essas pessoas que questionaram se foi “só um beijo” não sabem o que é entrar em um carro pensando em rotas alternativas ou como poderia me jogar se o motorista tentasse algo mais.

 

Não foi só um beijo, foi violação do meu corpo, foi estupro, foi uma das piores experiências que tive na vida e depois ainda senti raiva de mim. Bem mais do que sinto nojo dele, senti raiva por não ter feito escândalo. Senti raiva por me culpar e me culpei por não saber mais o que fazer.

 

Em uma sociedade machista e patriarcal é muito comum que a vítima se sinta culpada, que se pergunte o que há de errado com ela. Pergunta se falamos para parar, se fizemos charminho, se bebemos ou não, qual a roupa que vestíamos e se o cabelo estava solto ou preso. Não importa o que aconteça, dizem que a gente precisa ter mais cuidado.

 

Esse depoimento foi digitado rápido, sem lágrimas dessa vez, mas com muita dor. Carrego comigo a dor de ter sofrido essa e muitas outras violências e digo que nunca é pouco quando passamos. Nós mulheres, ainda precisamos aprender a não menosprezar as nossas dores e a nos apoiarmos. Seja qual for o tipo de violência, a culpa nunca será sua, Mulher!

 

 Daiane Oliveira – Jornalista e feminista preta.

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