A vida segue e a gente segue lidando com nossas feridas

07/07/2018

Conheci meu ex-namorado com 17/18 anos, eu era uma adolescente cheia de inseguranças e lidando com meus conflitos internos. No início ele me fez sentir a pessoa mais importante do mundo. Demorei muitos e muitos anos para perceber que o comportamento dele era abusivo. E entre idas e vindas acabei vivendo essa relação por 10 anos. As primeiras demonstrações de abuso vieram com ciúmes. Daqui onde estou hoje eu olho para trás e entendo aquilo como violência, e queria ter conseguido romper ali mesmo. Mas eu era muito nova, não sabia como lidar, ouvia tanto que esse ciúme era demonstração de carinho. E fui ficando. Ao final dos 10 anos tudo que existia entre nós dois era ódio. Estudei psicologia e acreditava que podia ajudá-lo. Que podíamos conversar e sermos melhor juntos afinal ele foi criado por um pai machista.


Até ele me dizer com todas as letras que se eu estava infeliz talvez eu fosse a "doente" ou a "doida" da história. E nossa relação sempre foi assim. Sem nenhum respeito, sem nenhuma confiança. Ele cuidava das minhas roupas, cuidava do meu corte de cabelo, criticava meu comportamento o tempo todo, me criticava para outras pessoas, controlava meus horários, meus amigos, até mesmo habilitou o WhatsApp web do meu celular no notebook dele e ficava acompanhando minhas conversas sem meu consentimento. Quando o questionei sobre vigiar meu celular ele disse que teve razão em fazer isso, pois eu não era de confiança. Nos últimos meses de relação eu estava extremamente triste, chorosa, sem ânimo para nada, tinha dificuldade para dormir e para me concentrar. Havia passado por um problema de assédio moral no trabalho e ele só sabia dizer que eu era depressiva pois não queria me ajudar. Íamos nas festas em família e ele sempre alterava o tom de voz comigo sem qualquer motivo.


Seus tios lhe chamavam atenção por tratar uma mulher assim e eu ficava tão triste que saia de perto de todos para não chorar. E assim tudo que eu passei a sentir foi tristeza. Além de machista ele era extremamente homofóbico, racista...tinha ódio dos meus amigos gays e um ciúme maior ainda a ponto de desejar a morte deles. Eu tinha tanto medo de despertar o ódio dele (que sempre vinha do nada e por qualquer motivo) que eu comecei a policiar tudo que eu falava. Já não podia mais chegar em casa e contar minha rotina normalmente. Eu precisava omitir se havia estado com alguém que ele não gostava, ou se havia saído para jantar com amigas e demorado umas horas a mais. Vivia pisando em ovos.

 

Ele cercou todas as pessoas com quem eu me relacionava. Seus amigos hoje são os namorados das minhas amigas. E assim ele passou a controlar todos os locais onde eu estava. Alguns amigos notavam e tentavam me alertar, mas por muito tempo eu me culpei por despertar a raiva dele, acreditando que um dia ele ia mudar. Quando ele estava com muita raiva a agressão psicológica sempre ficava mais intensa. "Ele nunca me bateu", mas me agredia todos os dias com suas falas e olhares. As vezes saia de casa furioso e no caminho mandava áudios me xingando. Ele conhecia todas as minhas fraquezas e era muita hábil em usa-las para me machucar. Ouvi muitas vezes que era gorda, feia, chata, triste, antissocial, alguém ruim demais que nem mesmo as amigas ou família eram capaz de gostar de mim. Então eu devia agradecer por ele me ajudar. Enfim...depois de 10 anos rompemos a relação.


Minha irmã é casada com um primo dele e no início quis que o término fosse tranquilo em respeito às famílias. Voltei para casa dos meus pais (estávamos morando juntos há 2 anos). Passei num mestrado em outra cidade, mudei para estudar e achei que assim seguiríamos nossos caminhos. Mas ele continuou me controlando. Veio conhecer o local onde moro, vivia na casa dos meus pais (eu tinha relação difícil com a minha mãe. Ela endeusava ele, e muitas vezes me culpou pelo nosso término). Umas das formas de ele me controlar sempre foi a questão financeira. Ele pagava casa, carro quando morávamos juntos então isso dava uma sensação de poder a ele.


E aqui onde moro, estou como bolsista de mestrado, então ele vivia me enchendo de mensagens dizendo o quão difícil devia estar minha vida de "pobre", como devia ser difícil viver agora que ninguém mais pagava minhas contas, e se eu não me envergonhava de morar em uma kitnet em um morro. Eu ignorava as mensagens o máximo que podia, mas fui adoecendo cada vez mais.
 

Há uns três meses ele começou a namorar, mas eu nunca soube (nunca o segui em nenhuma rede social e minha família mantém a discrição). Fiquei enojada quando soube, pois, ele vivia me ligando pedindo para que mandasse nudes ou fizesse vídeos chamadas pra ele se masturbar olhando meu rosto. Até sugeria me mandar dinheiro em troca do que ele chamava de "ajuda de amigo". Ele dizia para todos que estávamos muito amigos e essa a visão dele de amizade com uma mulher

 

Os sintomas de pânico só pioraram. Ele pedia para vir em casa quando estivesse pela região então eu passei a ficar desconfiada de qualquer carro ou pessoa parecida que via na rua. Não dormia com medo, chorava sem motivos onde quer que eu estivesse, não conseguia mais me concentrar nas aulas ou trabalhar no meu mestrado. Aos poucos, lendo relatos em páginas como essa consegui elaborar o que vivi e me senti forte para contar para as pessoas. Afinal ele era o estereótipo do homem perfeito. Ele encantava qualquer um que se aproximasse, era responsável, com o trabalho, era organizado financeiramente, era extremamente extrovertido. E eu, no auge da minha insegurança e ouvindo todo dia que eu era um lixo, achava que as pessoas não iam entender que tudo isso era violento e que me machucou muito.

 

Comecei a contar para as pessoas próximas. Comecei a tirar prints das conversas mais esdrúxulas e enviar para minha irmã. Então as pessoas começaram a falar que nunca entenderam o que eu fazia com ele. E cada dia que passava, eu ia me sentindo cada vez mais forte. Encarei os anos de conflito com minha mãe e com ajuda da minha irmã e cunhado consegui contar tudo para ela. E o suporte dela foi essencial para as decisões que tomei depois. Cortei qualquer contato com ele. Liguei um foda-se para a boa relação entre famílias pois soube que mesmo os pais dele ficavam me humilhando após meu término. Pensei que precisava cuidar de mim e mais nada.

 

E depois disso um peso enorme saiu das minhas costas. Os sintomas de pânico reduziram. Hoje faz 1 ano e meio que terminamos e em alguns momentos ainda fico ansiosa ou preocupada. As vezes ainda questiono por que isso foi acontecer comigo? Por que não rompi antes? Me sinto muito triste ou com muita raiva, duvidando se vou ser amada de verdade. Mas o que eu aprendi, já que precisei passar por isso, é que ninguém vai me amar se eu não me amar antes de tudo. Preciso ser sempre a pessoa mais importante da minha vida.
 

A vida segue e a gente segue lidando com nossas feridas e com essa experiência que infelizmente faz parte da história de muitas de nós. Hoje venho sentindo necessidade de usar minha profissão para apoiar outras mulheres. De ocupar espaços de discussão e acolher. Pois foram esses espaços que fizeram toda diferença na minha história.


Sou muito grata por iniciativas como essas. Lamento que algumas mulheres ainda não perceberam que juntas somos mais fortes e sonho que um dia nenhuma de nós mais será violentada de forma alguma. E seguimos na luta, cada uma como pode, por todas que já passaram, por nós e pelas manas que ainda virão para esse mundo. Gratidão!

 

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