As novidades acabam se não houver coragem

21/08/2018

 Quando somos jovens, desejamos o desconhecido, idealizando a primeira ida com as amigas na balada, o primeiro beijo, a primeira transa, o primeiro dia na faculdade,  o primeiro salário, o primeiro sapato comprado com seu primeiro salário... Desejamos as novidades mais até que o objeto em si. O doce gosto das primeiras coisas da vida.

 

Passados 20 anos (ou mais) da nossa capacidade de se lembrar de cada detalhe do que nos acontece, o tempero perde o gosto. Quer dizer, perde o sabor se forem coisas positivas e empolgantes, porque se forem negativas, ah!, o amargo é potencializado. Afinal, "você já viu esse filme". Assim, o décimo primeiro pé na bunda dói muito mais que o segundo. Ou, ainda, você nem começa a se relacionar para não correr o risco que ele aconteça.

 

Há quase duas semanas, ouvi um conselho importante para meu namoro recente: "não se apaixone". Na hora, eu ri. Acho que ri de nervoso mesmo, porque o que eu queria dizer era "que bobagem você está dizendo!". Quem me disse deixou de acreditar no amor e, infelizmente, recomendar que eu não me apaixonasse era a menor das demonstrações desse fato. Poderia ser uma fala sem importância, daquelas que a gente ignora, mas, ao contrário, me provocou uma reflexão considerável.

 

Voltar a sentir o gosto saboroso do novo em nossas vidas é uma escolha. Arriscada, eu sei. Se colocar em um estado de entusiasmo diante da vida e seus acontecimentos é quase uma maneira de optar pelo estilo de vida mais leve e desprendido. Merdas acontecem, acontecem o tempo todo. E coisas boas acontecem também. Para qual você vai dedicar suas energias tão preciosas?

 

Dentro de nós há uma criança louca para sair e brincar. Mas, tadinha. Ela foi sufocada ano após ano com a imposição de que meninas não fazem isso ou aquilo ou com o slogan fatal: "o que eles vão pensar?". Sério que você ainda está se ocupando dos pensamentos e opiniões alheias quando nem os seus estão em harmonia? É um contrassenso. "Eles" vão pensar o que quiserem e, adivinha: você pode fazer o mesmo, só que em prol de si.

 

Tem um tempo que cheguei à conclusão de que o que desejávamos ser quando tínhamos 6 ou 7 anos é o mais próximo do que alguns chamam de "propósito de vida". Fiz uma enquete empírica com algumas pessoas próximas, sem qualquer metodologia científica e, em sua grande maioria, se confirmou. É natural que aquela imagem infantil passará por adaptações adultas e para realidade atual, mas faça o teste por si só. É um momento da nossa existência que nada parece nos impedir de sonhar o que quiser.

 

Atendendo uma coachee semana passada, ouvi o que é muito recorrente entre nós mulheres, especialmente depois de filhos e casamento longo. Ela estava terminando um relacionamento de 18 anos, dois filhos adolescentes e uma constatação: não viveu os sonhos que tinha. Por essa razão, ao invés de se empoderar por ter a coragem de interromper um relacionamento abusivo e castrador, ela estava apegada à percepção de que "era tarde demais". Ouvir isso de alguém que nem chegou aos 40 anos é desolador. De fato, há o luto, há a dor, cacos para todo lado, mas agora, ela tem todas as possibilidades, tal qual uma criança na pré-escola. E com uma vantagem: a maturidade para fazer melhores escolhas e autonomia para agir diferente mais rápido que antes.

 

Aliás, está aqui um termo amplamente usado para coisas-novas-fora-de-hora: coragem. Separar-se depois de quase duas décadas de casamento é tido como coragem. Apaixonar-se depois dos 30 anos: coragem. Fazer uma segunda faculdade (podia ser a primeira) que vai durar cinco anos: coragem. Mudar de cidade (ou país) para viver uma nova experiência: coragem. Realizar os menores e maiores sonhos: coragem. Ter um filho quando todos já pensam que você não teria: coragem. Mudar de emprego porque ele não lhe satisfaz mais: coragem. Cortar o cabelo curto depois de década com ele longo: coragem - bem, nesse caso, todo cabelo curto, em qualquer, circunstância é coragem.

 

Sim, coragem. Porém, não no sentido pejorativo dito por terceiros que escolhem a palavra como substituta de uma série de outras que, se ditas, jogariam uma pá de cal nos seus planos. Coragem no sentido mais puro do sabor gostoso da novidade, da renovação, do frescor da vivência ou do resgate da mais pura vontade de viver.

 

Quanto a mim, espero ter a oportunidade de me apaixonar dessa e de todas outras vezes. Não só por alguém que escolhi estar ao meu lado, mas também pela faculdade de Psicologia, cujas aulas começam na próxima semana; por cada novo coachee que eu tenha a chance de ajudar; por cada receita que for produzida em minha cozinha caseira; cada artesanato feito com minhas mãos; cada texto digitado em meu computador. Quero me manter em estado de paixão e amor, por escolha própria, por coragem.

Please reload

  • Branco Facebook Ícone
  • Branca Ícone Instagram

©2018 by Elas Fora da Curva. Proudly created with Wix.com