SOBRE A MORTE E SEUS ENSINAMENTOS

13/04/2019

Há quase três semanas tive que fazer uma das escolhas mais dolorosas da minha vida: deixar a Milu partir. Não foi uma escolha difícil, tendo em vista que se a vida dela não seria viável e não seria justo para ela ou para mim continuar no mesmo caminho. Optei pela eutanásia com minha racionalidade tranquila por já ter pensado sobre o assunto antes e ter uma opinião formada.

Sim, Milu era minha cachorrinha. Um bicho, um animal... jamais ignorei esse fato ao longo dos oito maravilhosos anos em que ela esteve comigo. Até mesmo nos momentos em que ela parecia estar muito mais cuidando de mim do que eu, dela. O amor e a conexão que se estabeleceu entre nós – especialmente nas situações em que éramos só nós duas em casa – foi algo que eu não havia experimentado até então.

 

Sua partida me despertou um turbilhão de pensamentos, reflexões e compreensões que eu não teria sido capaz de imaginar quando comecei a sentir e a intuir que a hora dela estava chegando. A morte nos ensina muito sobre a vida. Essa frase que pode dar a impressão de banalidade por ser tão óbvia, entretanto, carrega consigo muito mais do que o impulso de fazer a vida valer a pena ao ser lembrada de que é finita.

 

Tenho dito que, se minha peludinha não tivesse resistido à cirurgia, seria muito mais fácil lidar. Acontece que ela estava muito forte e resistente à anestesia, às dores, a tudo o que estava acontecendo e entregou em minhas mãos a decisão, o pedido de permissão para ir embora. Ter que abrir mão do controle, de uma atitude egoísta de continuar com ela, foi algo muito impactante para mim.

Não foi um fato isolado. Esse momento faz parte de algo muito maior e tem que tem se transcorrido há mais ou menos um ano e meio de sucessivas situações que colocam em xeque a lógica, a racionalidade e o controle para escancarar que sou feita de emoções, sentimentos e intuição.

 

Passado um primeiro momento de dor da perda, de choro compulsivo, do sentimento de impotência diante de uma doença que foi descoberta tão repentinamente, de evitar a porta principal de entrada e o vazio da casa, comecei a refletir sobre o significado dos acontecimentos. Porque é assim que acontece: a clareza e o entendimento vêm depois, quando o coração se acalma e você se afasta um pouco da situação para olhar de maneira mais ampla. 
Essa postura diante das reviravoltas da minha vida tem me ajudado a aprender sobre mim e sobre o mundo – pessoas e acontecimentos – à minha volta. A vida é movimento e a vida é aprendizado constante. Sendo coerente ao que acredito, se algo ou alguém se vai é para abrir espaço para o novo. Ainda que eu não tenha muita noção do que virá... e tudo bem.

Outra reflexão que chegou como uma bofetada foi o fato de todos nascemos e seguimos sozinhos. Não há que se carregar lamento sobre essa constatação. É o que é. Tudo e todos os que nos rodeiam são acréscimos ao que se é. Sequer são complementos de pedaços faltantes.

 

Por muito tempo na minha vida, eu senti como se houvesse um buraco dentro de mim que eu não era capaz de preencher e que ninguém nem nada poderia me ajudar a ocupar. E não foi por falta de tentativas. O que eu não sabia, naquela época, era que o que me faltava era eu mesma.

 

Tive uma companheira maravilhosa e, com sua morte, me vi só, entretanto, sem qualquer sensação de que me falta algo. Não me falta nada - o que não quer dizer que não existam conquistas a serem feitas ou que me tornei uma eremita autossuficiente.

É bem provável que se ela tivesse ido embora antes de eu estar preparada, minha dor seria muito, muito maior. Minha intuição me diz que, de certa forma, ela sabia disso e cumpriu maravilhosamente sua missão.

 

Muitas outras lições estão se consolidando em minha mente. Tenho estado mais introspectiva, meditativa sobre os próximos passos, as novas escolhas. Estou degustando cada momento, cada sentimento, cada emoção... tendo a consciência de que a morte nos ensina muito sobre a vida e é como quero me sentir daqui por diante: viva!

 

Obrigada por mais essa, Milu! Te amo.

Please reload

  • Branco Facebook Ícone
  • Branca Ícone Instagram

©2018 by Elas Fora da Curva. Proudly created with Wix.com