Eu sou preta, você é branco e daí?

25/04/2019

Cá do outro lado do oceano, o re-encontro entre colonizadores e colonizados. Meu ex professor, de antropologia, me perguntou:

- Acerca disso, ainda não cicatrizaram as feridas?

- As feridas sim, mas cicatrizes permanecem, tanto pela "brasilidade" quanto pela cor da pele e a história nela cravada.

 

Bem sei, que por muitos, ainda indefinida. Uma vez minha filha de oito anos, foi brincar no parque com a prima. E as crianças começaram a chama-las de "pretas" e logo voltaram para casa, sentido-se envergonhadas do acontecimento.

- Bem, me dirigi a elas e perguntei, qual de era a cor deles. Elas me responderam: - Branca! - E se vocês os chamassem, brancos, o que aconteceria? Nada, não é verdade! Eles são brancos e vocês pretas e tá tudo bem... Carinhosamente, chamo minha filha de preta da mamãe e minha avó me chamava de Pretinha...

 

Outro dia fui a uma consulta e um funcionário com a cor de pele preta, fez a minha ficha e marcou minha cor como branca, eu o perguntei o porquê e ele me disse: - porque olho para a senhora e sua pele é branca. Quando digo a alguém que sou preta, me fazem cara de pena e dizem: - você não é tão escura assim... Você é morena ou mulata ... Me desculpem lá, mas "moreno, vem de "mouro" e pelo contexto histórico, o termo é de origem bastante pejorativa, fechando as portas para a ascensão social e ou ainda até mesmo ser perseguido pela inquisição. Mulato remete ao cruzamento de mula com cavalo, mestiço.

 

Talvez, não devêssemos nos importar com o sentido semântico, que por vezes, controversos, quando muda o habitat, e não nos rendermos demasiado a etimologia, porém faz parte do pesquisador, a crítica diante de assuntos que parecem engraçados aos olhos daqueles que não conhecem o peso da história. Poderia dizer que sou negra, mas não creio que negro seja cor, cor para mim é branco ou preto, assim definido na ciência, existe a cor-luz e a cor pigmento, onde na primeira hipótese, o branco é soma de todas cores e na última, o preto é mistura de todas a cores. Sem querer aprofundar no assunto, apenas deixar fios para aguçar a reflexão acerca do mesmo. Poderia ainda dizer que sou afro-descendente, mas isso me faz entender que estou abrindo mão do sangue indígena que corre nas minhas veias. Além de maquilar o passado histórico do preto, tornando o mais florido, às custas das dores dos ancestrais...

 

Todo este discurso, para dizer que, aos oito anos eu brincava muito ao sol e tinha a pele bastante pigmentada, se assim posso dizer, e no meu primeiro ano da escola, minha então professora, de pele branca, resolveu contar no dia da abolição da escravatura, a história deste período, bem como exaltar no Zumbi, o Quilombo dos Palmares. Minha turma, possuía a pele clara, uma vez que a turma já havia sido dividida em duas e voltando às memórias, a outra turma possuía pouco mais de melanina. Para além da diferença da cor, também contava o fator socioeconômico na distinção das classes, bem como o interesse dos pais na formação das crianças. Eu e uma amiga, ficamos neste grupo dos "intelectuais" onde estavam filhos de professores, pastores e funcionários públicos, por vivermos na Zona Rural, tal situação era decisiva pelo horário letivo . Após narrar a história, a professora fez questão de lembrar: - "por exemplo, "A Edilaine e a Maria Aparecida, são pretas, isso porque, se tivessem nascido naquela época, a Edilaine, apesar de mais clara, seria filha da escrava com o colono, logo iria para a senzala e se desobedecesse iria para o tronco, já a Maria Aparecida, é preta mesmo." Aquelas palavras foram cruéis aos meus ouvidos, porque cresci ouvindo as amigas da minha avó dizendo: - sua neta, parece índia. O pai era índio? E essa questão, faz suscitar as questões acima. E pensando em preservar toda a minha brasilidade e desmitificar os traços físicos estereotipados do preto, eu digo: eu sou preta, você é branco e daí? Disse Barros in Portugal Eu sou preta, você é branca, e daí?

 

 

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