Minha História

02/05/2019

Sou Flávia, a quarta filha de uma família de 6 filhos, sendo apenas um homem entre eles. Quando nasci, meu pai, um militar ávido por ter um garoto, optou por deixar minha mãe escolher meu nome (já estava cansado de dar nome a mulheres). O ano era 1973 e eu, para mostrar que daria trabalho, nasci no Dia dos Pais, sendo um presente de grego para o meu pai. Com essas questões familiares e outros problemas, tive uma infância dura. Dormimos por muito tempo em espaços apertados, não raro, todos numa cama só. Conheci o preconceito e o bullying (não tinha esse nome, mas doía tanto quanto). Tenho propriedade para falar da fome, pois já senti, mas tenho a felicidade de falar de perseverança e coragem, pois sobrevivi.


Na adolescência a baixa autoestima fez com que eu buscasse uma forma de ser boa em algo, então resolvi que seria uma aluna acima da média e isso foi uma constate na minha vida. Estava sempre entre os dez melhores do Colégio Tiradentes da PMMG. O tempo passou e já na faculdade também consegui bons resultados, o mesmo aconteceu na pós-graduação. Sempre me dediquei para poder sobrepor todas as coisas ruins que vivi.


Já adulta e ocupando o cargo de gerente comercial, ao me ver sentada à mesa de reunião de uma das maiores empresas de fundições e metalurgias do mundo, tive a sensação que tinha ‘vencido na vida’. Mas mal sabia que o sucesso emitia uma luz que incomodava os outros. De 2010 a 2013 adoeci, os médicos não fechavam o diagnóstico. Visitas semanais à emergência, febre, infecções do trato urinário, náuseas e vômitos constantes. Em 2013, doze quilos mais magra, descobri, sem querer, que o motivo de toda aquela sintomática estava na água que eu bebia. Eu estava sendo envenenada por alguém dentro do ambiente de trabalho. Ao apresentar o caso aos meus superiores, fui demitida. Ainda muito doente, fui injustiçada e demitida. 

 

O período que sucedeu a demissão foi um misto de alívio e de dor. A euforia inicial, deu lugar à depressão. Toda a energia vital havia se perdido. Tudo isso que vivi se sucedeu no medo de pessoas, a dor que a falta de respostas gerava, a incerteza, a falta de coragem, a desconfiança. Nada mais fazia sentido e, por mais de uma vez, eu tentei tirar minha própria vida. Eu queria só parar de sentir dor e também de causar dor nos outros. Parece covardia, mas foram os momentos em que a coragem me desafiou.

Diante do fracasso em dar cabo à minha vida, pedi a Deus uma nova oportunidade de ser útil, eu precisava perder o medo de gente. Até porque, se existiam pessoas que estão afastadas da luz, certamente haveria outras iluminadas. Foi quando eu comecei a ser palhaço em hospital, em 2015, através dos Guardiões do Riso. Desde então voltei a ir regularmente ao hospital, mas não como paciente, e sim com o intuito de ajudar os outros, e hoje faço parte da prescrição médica para ajudar na cura.

A partir desse trabalho, outras ações voluntárias foram aparecendo e me envolvendo. O trabalho com as pessoas em situação de rua e vulneráveis, as missões solidárias para o norte de Minas, o encontro com as crianças da onco pediatria da Santa Casa, as perucas de princesa e tocas de super-heróis tecidas em crochê.

Descobri que dor se cura com amor. Entendi que nada é tão revigorante quanto ver o sorriso sincero de pessoas que são verdadeiramente gratas. Entendi que sou planta movida à solidariedade e amor ao próximo e, quando não sou útil, eu murcho. Hoje, ainda tomo medicação (não vou negar), mas quando a cama me convida a ficar, lembro que alguém precisa de mim e assim me levanto para mais um dia.

Fazendo uma analogia, assim como as ostras, consegui transformar a dor que me invadiu em algo útil. E, citando Rubem Alves: Ostra feliz não faz pérola.”   

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