A menina sem nome

23/06/2019

Na periferia de Curitiba em uma área bonita e arborizada, eu me estabeleci, creio que nunca havia falado desse assunto tão diretamente quanto hoje, e Deus me ajude, estou fazendo isso em um editor on-line, a exposição hoje não é problema, mas nem sempre foi assim.

 

As portas dos 18 anos, o frio era intenso e eu trabalhei com meu tio paterno em uma festa de laranjas no pé da serra do Paraná, me lembro que vendíamos camisetas, cobertores e meias, tudo usado, porém tudo limpo e muito bem cuidado. Era ainda aquela época em que se usava muita jaqueta jeans, o frio era tão intenso que vendemos todos os cobertores na primeira noite de festas, o que de verdade não é fácil pois em Cerro Azul, cidade famosa pelas laranjas e bergamotas, a caixa de laranja rendia aos produtores coisa de 50 centavos cada.

 

Mas espera essa conversa não começa aqui, ela começa em 1994. Filha de um casal inter-racial no sul do pais onde predominantemente somos filhos de europeus, eu e meus cabelos encaracoladinhos, sempre chamamos atenção. Minha mãe era uma negra alta, linda, de olhos pequenos, o que hoje chamamos de negra retinta, com cor de canela, em uma época que a novela chica da silva tinha uma atriz que era obrigada a usar maquiagem, que não eram para o tom de pele dela o que a deixava com aspecto de fantasma. Naquela época eu já vivia meu primeiro amor, tinha então 8 anos, ela era índia, tinha cabelos esvoaçantes e negros, e junto dela vivi várias aventuras de menina. Inclusive as primeiras vezes que brinquei de casinha, brincadeiras em que dormíamos abraçadinhas, trocávamos beijinhos e carinhos, e quando eu segurava a mão dela nas minhas, o que eu sentia não era feio nem errado, mas a vida veio tentar me fazer pensar diferente. Um dia brincando de casinha no banheiro de casa, nós trancamos a porta, coisa que não era normal em casa, minha mãe ouviu a 'brincadeira', e batendo freneticamente na porta repetia 'o que está acontecendo ai?', quando abrimos a porta ela me deu um tapa e minha amiga não pode mais voltar em casa por coisa de duas semanas, e desse dia em diante, eu aprendi que sentir o que eu sentia em relação a outra menina era feio, e errado. Mamãe morreu de acidente, poucos meses depois.  A mãe da minha amiga nunca levou essa história a sério, e hoje essa menina é casada e eu sou madrinha da pequena Gabriele que vive em Madrid.

 

Voltando ao frio da serra do Paraná, na noite em que vendemos todos os cobertores, eu tive de dormir em uma pilha de camisetas não vendidas, com saudade de casa e de papai. Quando novamente em Curitiba, três dias depois, com os 50 reais que ganhei na festa e uma blusa de frio, dei o dinheiro ao meu pai para pagar a prova do vestibular  e combinei com ele de ir estudar. Fiz matricula no curso de exatas, era tecnologia em informática na época, primeira turma da Tuiuti, e na minha aula de estrutura de dados conheci uma professora, era uma asiática de olhos claros, o nome dela não faz parte dessa conversa, era linda, inteligente, mas eu não podia pensar isso, pois era feio e errado.

 

Era 2009, eu era uma brilhante Desenvolvedora Junior na linguagem Java, trabalhando pra uma das instituições bancárias mais rentáveis da América Latina, eu namorava. Ele era alto magro, meio sem sal, mas ele era certo, ele não era errado, por ter ele eu não tinha mais de me preocupar, pois ninguém iria imaginar que eu ainda  tinha vontades de brincar de casinha com as meninas.

 

As convenções entre homens e mulheres nunca foram muito claras pra mim, por conta disso eu sempre tive amigos homens, papai me amava, meu irmão também, então eu nunca pensei que o homem era mal, e realmente não é. Quando eu e meu namorado terminamos eu resolvi sair com um menino que era amigo desses amigos que conheci na faculdade no circuito das universidades, coisas que papai nunca me explicou por não saber que isso me poderia ocorrer, é que infelizmente, não se deve aceitar carona para casa. Era 2011 e eu fui vítima de violência sexual, papai quando soube anos depois me disse que se eu tivesse contado no dia, ele teria sido preso, e o menino teria sido morto, e eu que duramente tentava sobreviver a esse mundo de bonito e feio, de certo e errado, voltei a olhar as meninas, e a tocar suas mãos, e brincar de casinha.

 

Eram 4h da manhã de um domingo de carnaval, as mãos dela passavam pelo meu rosto e eu por dentro repetia 'tá tudo bem! É a última vez, ninguém precisa saber', eu tinha entrega do meu caso de uso naquela manhã, eu tratava um software doente que atendia as crianças, e para mim elas eram muito importantes. Nós tentávamos melhorá-lo de todas as formas, com as tecnologias que conhecíamos, emaranhados de frameworks, e eu acreditava na época que faríamos diferente e mudaríamos o mundo. 'Vamos descer juntos?' um colega escreveu no comunicador interno, 'você não vai pegar um pedaço do bolo de santo Antônio?', outro disse em voz alta, 'vai morrer encalhada regulando mixaria, foram tantos os assédios, foi tanta dor, e eu já não pensava mais nas crianças eu pensava em sobreviver a todas aquelas agressões de alguma forma, mas no final do dia se eu sobrevivesse um pouco mais, eu poderia quem sabe, levar minha amiga pra jantar, e brincar de casinha onde ninguém nos visse.

 

Era 2013 finalmente, e eu era adulta já, papai olhava pra mim intrigado com a notícia que eu vim trazer, eu chorava compulsivamente, eu era tão menina, e agora era tão mulher. Eu já não morava mais na periferia, aquela casa já não era minha, era a casa de papai, e ele tinha o poder de mudar o mundo em que eu vivia, e eu tive medo de levar outro tapa no rosto,  e de não poder voltar a vê-lo  nunca mais: 'Eu, ainda uso as mesmas roupas, eu tenho as mesmas crenças, ainda tenho a mesma fé, mas eu não pude me conter, eu me apaixonei, eu achei que isso ia passar, mas só se fez aumentar, e ela gosta de mim também... Eu sou gay', os olhos verdes de meu pai se diminuíram em um sorriso do tamanho do universo e ele me abraçou e disse 'o pai te ama igual, com o mesmo coração, o pai não mudou, o pai usa a mesma roupa, o pai tem o mesmo amor por você, não precisa chorar', e o mundo mudou, mudou tudo pra mim, e agora eu já não era mais feia, e nem errada.

 

Era 2017, eu já morava sozinha há 3 anos, 'aquela sapatão que mora ali em cima', eles não sabiam o meu nome, 'ela tem gatos na casa dela! Aquela sapatão que mora aqui ao lado', creio que passei esses 3 anos sem nome, 'tá levando o lixo moça?', ela olhou pra mim 'Oi sim estou sim', eu sorri 'somos novos eu e meu marido aqui no prédio, quais os dias do lixo moça? Qual seu nome?', 'Sou Francielle, eu moro ali em cima', e finalmente eu voltei a ter nome.

 

Eu adorava a empresa que trabalhava, e o que fazia, ainda era Java, ainda eram frameworks e vários micro serviços dentre programas legados e interfaces diversas, ainda era infoq todas as manhãs, mas dessa vez a empresa era outra, inclusivista, um modelo que eu só tinha ouvido falar. A prova sim foi difícil, mas o peso da entrevista era muito maior, a GFT se importava muito mais com que tipo de pessoa que eu era, do que com o quanto conhecimento técnico que eu tinha, éramos incentivados a ter uma competitividade saudável, na qual estudar aprender e cooperar em base diária eram parte do nosso dia a dia. Igual a aquela menina de 18 anos nos primeiros anos de faculdade, eu me sentia incentivada a ser o melhor de mim sempre. 

 

'Vou mandar flores para ela, acho', disse pra uma colega na cozinha, 'flor é meio clichê né Fran?', 'então vou mandar fazer um moletom pra ela, a gente vai viajar pra Santa Catarina, vai estar meio friozinho', ela sorriu, 'acho que o moletom é boa ideia'.  Não era só eu, todas as pessoas que passavam pela porta eram entrevistadas com essa intenção, não de ser tecnicamente muito bom, afinal aqui a gente tem processo, e incentivo, mas de juntar um punhado de gente boa na definição da palavra pra fazer os melhores produtos, 'Vamos na chopelaria Fran? Pode trazer a mulher, o João vai levar a esposa também', 'oi Fran, vai na assembléia para pintar os apartamentos?' ele perguntou quando eu voltava do sacolão curitibano, 'Oi Douglas, eu acho que vou se der tempo', algumas pessoas não sabem a importância de se ter um nome. 

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